Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Naquele dia tinha tempo - FIM

Naquele dia tinha tempo. Sentou-se frente ao espelho e resolveu regressar ao corpo abandonado.
Há muitos anos atrás despira-se dele como se o achasse um adereço inútil.
Quase se esquecera de que lhe pertencia e de que poderia usá-lo como lhe apetecesse.
Mas naquele tempo não lhe apetecia, ou então, não sabia como lhe apetecer. Sentia-se uma estranha para si própria.
Ao olhar para trás, poder-se-ia dizer que era alguém que estava sempre ausente.
Um vulto que aparecia de quando em vez e depois desaparecia sem deixar rasto.
Sentia-se assim. Um ser que não fazia diferença.
Era como se existisse apenas na imaginação de alguns que por vezes se apercebiam da sua imagem.
Talvez tivesse medo de ser, de se tornar demasiado viva para ela própria.
Queria sair daquele fim do mundo e ao mesmo tempo fechava todas as portas que ia encontrando pelo caminho.
Lá dentro, da alma e do corpo, sabia muitas coisas. Sabia que algures existia um lugar dentro de alguém onde era possível sonhar sem que houvesse sempre uma nuvem triste a pairar...

Era Outono e, em todos os tons de castanho dourado que se reflectiam no espelho, podia ver que o tinha encontrado.
Era como se de repente pudesse ver o cabelo a crescer, acompanhando atentamente todos os cambiantes daquele percurso tão seu.
Agora tinha quase tudo e quase nada.
Pelo rio abaixo, caminhando devagar, fora atirando pedaços de tristeza que guardara em tempos de maré vaza. De certo modo estava a libertar-se de uma pele que não lhe servia para poder mergulhar numa nova descoberta. Já podia olhar para ele e encontrar todos os pedacinhos de vida que perdera.

Naquele dia tinha tempo e continuou a olhar-se ao espelho. Chovia devagar e parecia que tudo se diluía em câmara lenta. Deixou-se voar até ao seu aconchego e, embora a chuva insistisse em lembrar-lhe Veneza naquela noite de nostalgia, não se sentiu só.
Estava quente e apetecia-lhe sorrir. Finalmente tinha sentido o seu corpo. Percebia agora o significado da pele, a emoção de percorrê-la com as mãos, muito lentamente, para preencher todos os espaços com a mesma ternura.
Sentia agora o desejo de envolvê-lo num abraço apertado e beijá-lo como se estivesse a morder o sol. Naquele dia tinha tempo e apetecia-lhe…
 

publicado por perdalascada às 13:36
link do post | comentar | favorito

*mais sobre mim

*pesquisar

 

*Outubro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

*posts recentes

* Vulcões de Lanzarote

* Lanzarote, 11 setembro 20...

* Chegaram as castanhas

* por vezes

* Tenho muito soninho...

* Lanzarote

* ISLA DE LOBOS 09 SETEMBRO...

* GATO EM PLAYA BLANCA 11 S...

* ISLA DE LOBOS 09 SETEMBRO...

* ISLA GRACIOSA, LANZAROTE ...

*arquivos

* Outubro 2013

* Setembro 2013

* Setembro 2010

* Agosto 2010

* Julho 2010

* Abril 2010

* Março 2010

* Fevereiro 2010

* Janeiro 2010

* Dezembro 2009

* Novembro 2009

* Setembro 2009

* Julho 2009

* Junho 2009

* Maio 2009

* Abril 2009

* Março 2009

* Janeiro 2009

* Dezembro 2008

* Novembro 2008

* Setembro 2008

* Agosto 2008

* Julho 2008

* Junho 2008

* Maio 2008

* Abril 2008

* Janeiro 2008

* Dezembro 2007

* Novembro 2007

* Outubro 2007

* Setembro 2007

* Agosto 2007

* Julho 2007

* Junho 2007

* Maio 2007

* Abril 2007

*tags

* todas as tags

*Boas ligações

*Ai as horas...

*Quero saber quando há coisas novas

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner

*Search Engine

Submit your website to 20 Search Engines - FREE with ineedhits!

*Google

border="0" ALT="Google" align="absmiddle">

*Quantos se perderam por aqui?

blogs SAPO